O Espírito Santo pelos olhos do outro

Sabe quando você lê um texto e pensa : “puxa, eu queria ter escrito isso”? Pois é… foi o que aconteceu quando dei de cara com o post da Thiara em uma rede social. “Caramba” “hahaha é isso mesmo!” “Gente! Essa menina percebeu o Espírito Santo direitinho”.

A Thiara é paulistana e está comemorando um ano de mudança pra Vitória. Entrei em contato, pedi autorização, e agora publico o texto e as fotos dela aqui… Porque Viagem Massa também é viajar através dos olhos dos outros.

Olha que delícia! Fala Thiara. 🙂

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“Ontem fez um ano que cheguei a Vitória para morar. A pergunta que mais respondi nesses 12 meses foi: “Já se adaptou à cidade?”
Impossível não se adaptar. Vitória é maravilhosa comigo. Me recebe com sol pela manhã por mais de 300 vezes ao ano. Me permite viver a vida que eu sempre sonhei, com tempo de qualidade com a minha família, com dedicação à minha saúde. A cidade é praticamente toda plana, o que nos permite fazer quase tudo a pé ou de bicicleta. O clima ajuda muito, aqui não faz frio.

Mas para uma paulistana com praticamente 32 anos de capital, Vitória tem umas esquisitices, rs.
* quando te encontra na rua um capixaba dificilmente fala oi. Eles falam “Ei”. Chego na casa de alguém e a pessoa logo me recebe com um animado “Ei Thiara, como tá?”.

* o Parabéns a você aqui é incompleto. Eles não cantam a parte que diz “e pra fulano nada, tudoooo, e como é que é, ééééé, é pic, é hora, ratimbum, fu-la-no, fu-la-no. Nos aniversários que nós vamos ou a gente puxa o coro da segunda parte ou a gente quase morre engasgado com o canto preso na garganta.

* o capixaba tem uma mania engraçada de não falar o artigo definido antes do nome das pessoas. Converso com minha amiga e ela diz: “Tiago vai trabalhar hoje, Ana já tá dormindo”. Em vez de “O Tiago vai trabalhar hoje, a Ana já tá dormindo”.

* eles têm nojinho de dividir o copo, e isso para mim é realmente MUITO estranho. Sempre dividi o copo, a lata ou qualquer outra fonte de bebida com os amigos. Dificilmente eu tomo uma lata de cerveja sozinha, para não esquentar, e vou sempre dividindo com alguém, tomando na mesma lata. Caipirinha em SP a gente sempre faz uma grande e todo mundo toma. Aqui não, cada um tem que ter o seu copinho, cada um tem que ter a sua latinha.

* o mercado não abre aos domingos. Na verdade quase nenhum comércio abre aos domingos, e tem uma lei estadual para isso. A maior parte dos capixabas não gosta, mas eu adoro. Demorei apenas um mês para me acostumar e hoje acho realmente bom. Quando saio de casa aos domingos e me deparo com a cidade inteira fechada, famílias aos montes na praia andando de bicicleta, passando um tempo juntos, percebo que o ônus de viver em uma cidade que funciona 7 dias por semana é muito maior que o bônus. Viver em uma cidade que para é um enorme privilégio. A gente encontra outras coisas para fazer, não ligadas ao consumo, e descobre que existe sim vida interessante sem precisar gastar nada.

* a reposição da cerveja nos bares é algo muito bom! Aqui, quando você está em uma mesa de bar e sua cerveja acaba, basta tirar o casco do isopor e deixar do lado. Em segundos um garçom traz uma cheia e coloca no isopor. Tem hora que a gente nem vê, de tão rápido e automático que é. Ele não pergunta se você quer mais, se é pra trazer outra nem nada, ele simplesmente traz. Parece mágica! 11667338_896127053792084_4086842206720825789_n

* ninguém em Vitória sabe o endereço de nada. Nome de rua é enfeite por aqui, e ninguém usa GPS. Quando alguém te chama para ir na sua casa e você pede o endereço, a pessoa normalmente responde: Vai até o posto Shell da praia, vira a esquerda, aí na sua direita vai ter uma casa de tinta, entra nessa rua e meu prédio é o azul. E quando você insiste e pede o endereço completo, eles respondem: é no edifício Sevilha.
Na minha primeira semana aqui precisei chamar a manutenção do meu aquecedor. Liguei e pedi que viesse aqui. Passei o endereço e a pessoa perguntou qual era o ponto de referência. Eu disse que estava aqui há uma semana e ainda não conhecia nada, que não sabia passar um ponto de referência. Grosseira, a moça disse: “E você não pode olhar da sua janela e me dizer o que vê?”. Veja bem, eu moro no último prédio de uma rua sem saída. Respondi pra ela: “Posso moça, eu vejo a piscina”. É o que tem na minha janela, a piscina do prédio. Não tem comércio, não tem avenida, não tem nada. O técnico demorou duas horas para chegar aqui, porque ficou andando por todas as ruas do bairro até encontrar uma placa com o nome da minha.

* ir à praia é um conceito diferente aqui. Veja bem, a praia fica 900m da minha casa, mas é a praia da cidade de Vitória, que os capixabas não frequentam para tomar sol ou banho de mar. Quando alguém diz que vai passar o fim de semana ou as férias na praia, tá querendo dizer que vai a Guarapari. No primeiro mês minha prima me disse que a filha dela iria passar as férias na praia. Eu achava que ela iria armar uma barraca e acampar ali na areia, rs. Mas ela ía com o pai para a casa de “veraneio”, em Guarapa. thiara1

* a feira orgânica perto de casa foi um presente inesperado. É muito ba-ra-to! O pé se alface, o maço de rúcula, de agrião ou de qualquer outra verdura custa apenas R$ 1! E é orgânico gente! São os próprios produtores que montam suas barracas na feira e vendem seus próprios produtos.

* No inverno aqui faz uns 20 graus. A noite. No máximo faz 17 graus. Mas se você sai na rua, tem muita gente de blusa, bota, lenço no pescoço. Eles não sabem o que é frio. Aliás, aqui perto de casa tem uma loja que chama: “Roupas de inverno para viagens”. Lá vende bota e casaco, risos.

* PIZZA! Definitivamente, o que me faz falta é a pizza. No geral, a pizza aqui não é boa. Tem algumas pizzarias boas, mas a relação do capixaba com a pizza é muito diferente da relação do paulista. Sabe aquela portinha pequena, com um forno a lenha, uma geladeira e um telefone, que faz a melhor pizza do seu bairro? Aqui não tem. Aqui tem dois tipos de pizza: a pizzaria que é restaurante, que você vai lá e pede uma pizza, senta na mesa e come lá (e é cara, entre R$ 60 e R$ 70); e a pizza pré assada, essa sim delivery. Um dia resolvi experimentar, e não tem nada mais brochante do que esperar 30 minutos pela entrega e quando chega a caixa está fria. Isso! A pizza chega e você tem que colocar no seu forno comum para assar. Zuado, muito zuado. Tem pizzaria de forno a lenha que entrega, mas ainda assim é anos-luz diferente da pizza paulista. Não sei se uma pizzaria no estilo paulistano faria muito sucesso ou iria à falência aqui, porque ao mesmo tempo que a pizza de forno a lenha, bem recheada e com a borda grossa é deliciosa e me enche a boca de água, o capixaba não tem o hábito de pedir pizza na sexta a noite que nem o paulista tem. Por aqui percebi que não tem essa de reunir os amigos e pedir pizza, toda semana, igual fazíamos em SP.

*MOQUECA, ah, a moqueca capixaba. Aqui a moqueca é muito boa, e está disponível em todo lugar. Quase todo restaurante serve moqueca, e nunca comi uma que não fosse boa. E ainda tem moquequinha de banana da terra para acompanhar, e fechar com chave de ouro.

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Thiara na região das Montanhas Capixabas

UPDATE:

Gente, eu sei que tem pizzas boas aqui, já comi algumas. O que acho estranho é realmente essa falta de relação de amor com a pizza. Uma pizzaria entregar a pizza sem assar, ou ter uma pizza boa e não fazer entrega, ou fechar nos feriados ou nas férias é algo impensável em SP, é pedir para falir. Aqui é comum, e todo mundo acha normal. É como você ir morar em uma cidade que nào tem moqueca, e quando tem, é feita sem coentro e o pirão não acompanha. É quase isso.

* esqueci de dizer que os motoristas dirigem como loucos por aqui, muito rápido. A avenida da praia é 60km/h, mas até mesmo os ônibus andam a bem mais que isso. Vira e mexe tem um carro passando em alta velocidade em ruas pequenas da cidade. Deveria ter mais radares.

* outra peculiaridade é ver que alguns bares, restaurantes e lanchonetes fecham nos feriados e nas férias. No feriado de 7 de setembro saí com os amigos para comer e não encontrávamos nada aberto. Somente uma esfiharia e o King Kone estavam abertos no Jardim da Penha, nada mais. Agora no final do ano tentamos ir 3 vezes em uma pastelaria, mas ela estava fechada entre o Natal e o Ano Novo. Alguns bares do bairro tinham até um aviso na porta de que estavam fechados entre 22/12 e 03/01.

* aqui tem um Spoleto/Bob’s. Eu nunca tinha visto isso, mas é um restaurante compartilhado, rs. Tem um balcão para fazer pedidos, e metade é do Bob’s e a outra metade do Spoleto, aí as mesas e todo o restante do espaço é dos dois.

* apesar da falta das pizzarias paulistas, eu como muito bem aqui. Amo o kebab do Taboon na pracinha do Epa, a Tapiocaria, o King Kone, os hamburgeres do Willys, o kieber do Abertura, o Pastelão do Pacotinho, o churrasquinho da esquina da Amélia Tartuce Nasser, os espetos do Dim Dom Dom, o crepe suíço da pracinha, a panqueca do Pankecas, a comida mexicana do Los Chicos, o lanche do Rock Burger, o Bullys, todas as comidas do Spetacollo, a feijoada do Divino Botequim, e muitos outros restaurantes mais.

Sim, Vitória tem algumas esquisitices. Tenho certeza que vou descobrir muitas mais. Mas afinal, quem não tem não é? O balanço geral é extremamente posiitivo. Mudar para cá foi uma das decisões mais acertadas que tomamos e só temos a agradecer pela recepção que tivemos tanto da cidade acolhedora quanto dos capixabas, povo tão feliz. Mil vezes obrigada!

 

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A Thiara Ney, é empresária. Ela tem faz um trabalho muito legal no Estúdio Tuty (www.tuty.com.br). Todo mundo vai amar, principalmente as mamães. Fica a dica!

8 comentários sobre “O Espírito Santo pelos olhos do outro

  1. Oiiii Elaine, que bacana esse achado, me imaginei escrevendo minhas percepções, uma mineira que se muda para o interior de SP rssr legal as percepções dela, no final das contas apesar do que ela chama de “esquisitices” kkk, deu para perceber que Vitória é uma delicia e o capixaba super do bem! rsrs
    Aproveito para perguntar, vc não está no Snap??, Comecei te seguir mas nunca vi nenhuma publicação, será que estou seguindo errado? ou vc não aderiu? rsrs, eu estou usando muito e adorando, e foi vc que me incentivou haha! Bjoss

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