Potsdam – Charme, história e palácios, bem perto de Berlim

(Por José Maria Nunes)

Uma vez que já se cruzou um Oceano para chegar ao Velho Mundo, há decisões imprescindíveis para quem quer ver o maior número de lugares interessantes, dentro do tempo disponível. Em minhas andanças, sempre estou buscado o ”algo a mais” que uma região visitada ou uma grande cidade pode oferecer, saindo um pouco do roteiro tradicional.  Às vezes, a maravilha está localizada a menos de uma hora do local de hospedagem, e leva apenas uma viagem aprazível e confortável, de trem. É o caso da cidade de Potsdam. Fica, praticamente, à sombra de Berlim, apesar de ser a Capital de um Estado alemão, chamado Brandenburgo.

novo palacio postdam

Área do Novo Palácio. Vamos falar sobre ele…

É até engraçado olhar no mapa! Berlim (Capital Federal da Alemanha) e Brandenburgo, um dos 16 Estados que formam a República Federal Alemã. Este Estado que, durante a época da Guerra Fria e antes da famosa ”Queda do Muro” e da reunificação alemã, pertencia à Alemanha Oriental, circunda Berlim. Na verdade, as duas cidades formam uma única região metropolitana.  E bastam 45 minutos de metrô de superfície, ou, em alemão, S-Bahn.   A passagem custa só € 3,60. A experiência de sair de uma metrópole pulsante, e toda renovada pela experiência da Guerra, e passar uma tarde numa de menor porte, mais tranquila (mas não menor em importância histórica) é que faz tudo valer a pena!

As melhores estações ferroviárias de Berlim para pegar o trem que leva a Potsdam são a Estação Central(Berlin Hauptbahnhof), gigantesca e toda em vidro e aço escovado; ou a estação do Jardim Zoológico (Zoologischer Garten). O trem para pouco e cruza muitas áreas verdes (bem, de maio a novembro, as folhas das árvores ainda não caíram por causa do frio intenso e ficam com vários tons, do amarelo claro ao vermelho). A estação de Potsdam é bonita e hiper prática! Impossível se perder nela – diferença fundamental em relação ao monstro de vários andares que é a Central de Berlim. Há um posto de informações turísticas. Tudo muito bem sinalizado, fácil de achar.

Estação de Postdam

Estação de Postdam

O que eu decidi fazer, já que cheguei à cidade  no início da tarde e não dispunha de muito tempo, foi pegar um dos ônibus que ficam parados do lado de fora da estação e que fazem o tour guiado. Dura cerca de três horas e meia e leva as pessoas até as partes mais distantes, com tudo muito bem explicadinho. O preço da passagem é fixo: € 20, 00. Dá até para escolher o idioma para escutar com fones de ouvido distribuídos pelo guia. No meu ônibus, notei que havia uma família inteira vinda de Portugal. Assim que o guia, que era um cara de cabelos compridos e com a cara mais simpática do mundo, deu o sinal, colocamos os fones e começamos a escutar tudo sobre a cidade, desde a sua fundação no ano de 1157. Ok, era em espanhol. Mas com pouco de esforço, dava para entender sem atropelos linguísticos.

Arte em Potsdam

Arte em Potsdam

O que há de especial em Potsdam é que possui um rico legado histórico, como a residência dos reis da Prússia, bem como um grande número de belos parques e palácios. Tudo declarado, pela Unesco, Patrimônio Cultural da Humanidade. Dos palácios, o que mais me encheu os olhos foi o de Sanssouci, considerado até símbolo da cidade. Mais sobre ele, daqui a pouco… O ônibus passa por largas avenidas e percorre vários bairros.

Centro antigo Potsdam

Tem o bairro holandês, com 150 casas no estilo das que se veem em Amsterdam, feitas de tijolinhos vermelhos; o bairro russo, também com construções típicas, e o bairro francês, com suas belas igrejas. É que a cidade sempre recebeu muitos imigrantes de outros países, que lá se estabeleceram para servir à Corte Imperial. Dá para observar, também, a parte moderna da cidade, com uns poucos prédios altos, sem muita graça – são apartamentos como vemos em qualquer cidade de porte médio no Brasil.

Centro de Potsdam

A primeira parada me surpreendeu. O Palácio de Cecilienhof (Schloss Cecilienhof) não tinha nada a ver com a Alemanha, mas, sim, com a Inglaterra. Já explico: foi o último palácio a ser construído pela dinastia dos Hohenzollern, entre 1914 e 1917. O Imperador Guilherme II da Alemanha ordenou que ele fosse construído para seu filho, o príncipe Guilherme da Prússia, e sua esposa, a princesa Cecília. Por isso, a edificação tem um estilo parecido ao de uma casa de campo inglesa

palacio de cecilia

Uma história curiosa, contada pelo guia: durante a II Guerra Mundial, o Palácio foi habitado por uma princesa solitária. É que Cecília ficou morando lá até que as tropas do exército soviético chegaram ao local, em 1945. O príncipe seguiu o pai e foi para o exílio. Triste, não é? Também em Cecilienhof  foi realizada, já no pós-guerra, a Conferência de Potsdam.palácio de cecilia

Muito sobre a II Guerra foi decidido ali, inclusive a rendição japonesa, enquanto o presidente americano da época, Harry S. Trumam, preparava a ordem do ataque atômico contra Hiroshima e Nagasaki, no Japão. Eu fiquei imaginando que o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, personagem-chave no conflito, deve ter se sentido muito em casa em Cecilienhof. Atualmente, o Palácio abriga um museu e um hotel.  Em seguida, o ônibus nos levou o lugar mais aprazível de todos, na minha opinião.

O Palácio de Sanssouci (do francês: sem preocupações) é, verdadeiramente, um dos mais graciosos que já vi! Com numerosos templos,  jardim muito bem cuidado,  e o Parque. Palácio de Sanssouci

É todo clarinho, pintado de amarelo e ricamente adornado. Achei interessante que ele tenha sido desenhado por um alemão de nome bem comprido, Gerorg Wenzeslaus von Knobelsdorff, entre 1745 e 1747, para suprir a necessidade que Frederico II da Prússia sentia de uma residência privada, onde pudesse relaxar, longe da pompa e cerimônia da Corte de Berlim.  sansoussi

Era ali que o monarca, de muitos interesses artísticos, buscava a tranquilidade dos meses de verão. E era, também, onde ele recebia hóspedes. A localização foi escolhida a dedo. Em cima de uma colina e cercada de vinhedos. Perguntei ao guia se, de fato, ali se produziu vinho algum dia. A resposta dele foi que acreditava que sim, já que Frederico II chamava a residência de “mein Weinberghäuschen” (minha pequena casa de vinha). Outro fato interessante é que, apesar de ter contratado um arquiteto para projetar Sanssouci, Frederico II desenhou os esboços de como ele desejava que fosse tudo. Ele queria que fosse um refúgio e um lugar alegre e harmônico com os arredores.sansoussi detalhes

O Palácio sobreviveu às Guerras e, mesmo quando a Alemanha era dividida em duas (ficou na parte Oriental), foi preservado e aberto à visitação pública.  Há muito mais para  falar sobre Sanssouci, pois eu fiquei mesmo impressionado com o lugar e com a cabeça a mil, imaginando quanto romantismo deve ter rolado lá…

sansoussi

Antes de retornar ao Centro, a visita guiada nos levou ao Novo Palácio de Potsdam (Neues Palais, em alemão). Fica um pouco a Oeste de Sanssouci e foi construído 20 anos depois daquele, também por Frederico, o Grande. Mas, visivelmente, foi concebido com outras intenções. O que contou o guia – aliás, êta cara preparado para contar a História dos lugares e seus desenlaces – é que o gigantesco palácio em estilo Barroco fora construído para exibir o poderio bélico, ou seja, a capacidade da Prússia, que sempre foi uma das áreas mais poderosas e dominantes, militarmente, da Alemanha da época. E exibir a força, o poder e a glória de Frederico ao mundo. Em contraste com Sanssouci, é muito mais sombrio. E cheio de excessos de esplendor em mármore, pedra e dourados.

novo palacio

Para o rei, o Novo Palácio não era uma residência principal, mas uma exibição para a recepção de reis e pessoas influentes. Seus mais de 200 salas, quatro quartos de recolhimento principais e um teatro estavam disponíveis para funções reais, bailes e ocasiões de estado.novo palacio

Eu não gostei dali e daquele ar suntuoso, voltado para o objetivo de  amedrontar…. Sanssouci ficou mesmo como o meu palácio favorito! O mais perfeitinho e que me passou um quê de tranquilidade, bem de acordo com o nome com o qual Frederico o batizou. Nas adjacências do Novo Palácio, havia jovens alemães vestidos com roupas de época, alguns deles eram músicos. Todos muito simpáticos!

O tour termina passando por vários parques e dá duas opções aos visitantes: voltar ao ponto de partida, isto é, a Estação Central de Potsdam, ou desembarcar na Praça do Antigo Mercado. Eu escolhi descer do ônibus nessa última. E era só atravessar uma avenida e se deparar com o que os moradores locais consideram o “genuíno” Portal de Brandemburgo (há um outro com o mesmo nome, mais novo e mais famoso, em Berlim). Atravessa-se este portal para se chegar ao Centro Antigo.a portal

Fiz isso e me embrenhei pela rua de pedestres, lotada de lojas e restaurantes. Fim de tarde perfeito para explorar o lado pitoresco e menos pomposo, para tomar um Milchkaffee (que nada mais é do que um café com leite, que leva mais leite do que café e é servido numa xícara espantosamente grande)  e observar o povo. Adoro e recomendo, sem pressa nem estresse!

José Maria e o soldado Alemão

José Maria e o soldado Alemão

As construções são aconchegantes e arrumadinhas, como se vê em outras partes da Alemanha. Nada de prédios de muitos andares. Voltei a pé para a estação, atravessando uma ponte. Em 15 minutos já estava lá, à espera do trem que me levaria de volta a Berlim. E voltei para a metrópole com a sensação de ter tido meus horizontes ampliados.

Ter visto o que restou de grandiosidade num País de História tão conturbada, mas que, sobre mim, exerce um fascínio de caráter sociocultural de grandes dimensões. É impossível não imaginar que muitas cidades são Fênix, renascidas das cinzas, reconstruídas depois de bombardeios etc. Postdam, entretanto, sofreu menos danos e está lá, cheia de charme, para quem quiser ver. Vale lembrar que a cidade de Potsdam, com os seus palácios, foi um dos locais de residência favoritos da Família Imperial da Alemanha até à queda da dinastia Hohenzollern, em 1918. Estes palácios são, atualmente, visitados por mais de dois milhões de pessoas por ano, vindas de todo o mundo.

29 comentários sobre “Potsdam – Charme, história e palácios, bem perto de Berlim

  1. Ane .de novo…rs olha, vi na internet alguns relatos de passeio de ônibus por Potsdam. Somente o seu fala em 3 h de passeio. Você se lembra do nome da Empresa? Como funciona? São 8 paradas? Você desce, dá uma olhada e fica atenta para não perder o ônibus ou pode ficar por Aline pegar um próximo ônibus da mesma Empresa? Desculpe tantas perguntas mas, eu NUNCA utilizei estes ônibus de passeio! No entanto, vejo que para Potsdam é essencial,pois há muito para ver e évtudo muito distante. Obrigada!

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  2. Abe…de novo…rs olha, vi na internet alguns relatos de passeio de ônibus por Potsdam. Somente o seu fala em 3 h de passeio. Você se lembra do nome da Empresa? Como funciona? São 8 paradas? Você desce, dá uma olhada e fica atenta para não perder o ônibus ou pode ficar por Aline pegar um próximo ônibus da mesma Empresa? Desculpe tantas perguntas mas, eu NUNCA utilizei estes ônibus de passeio! No entanto, vejo que para Potsdam é essencial,pois há muito para ver e évtudo muito distante. Obrigada!

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  3. Olá! Quando o ônibus faz uma parada é por quanto tempo? Por ex., no Palácio, dá tempo de comprar o ingresso e visitar lá dentro ou se fica uns 5 min para ver por fora e pronto. Nesse caso, talvez, seria melhor ir pela manhã, ter uma visão geral de tudo e depois retornar e entrar onde achou mais atraente. Dizem que também andar pelas ruas da cidade é ótimo. Talvez almoçar até.

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  4. Que Massa! Repito essa frase, pelo menos, uma vez por dia! Ha uns 20 anos! Que massa viajar sem passaporte e visitar tesouros em miniatura, com voce J! Simplesmente me deu a mao e fomos dar uma voltinha dentro dos livros de historia! E pareceu que nunca saimos do mercado tomando nosso cafe de Itu… Obrigada por me ensinar Geografia, Historia, Antropologia, Arte e Ciencias Sociais! Que bom ouvir uma historia bem contada, ficar por dentro dos bastidores da noticia, sentir a cor local e tentar entender os sentimentos dos ricos e poderosos, que muitas vezes querem apenas o mesmo que a gente: uma casinha no campo, pra desopilar das obrigacoes com a metropole e, ainda por cima, aproveitar uma viagenzinha de trem… Aquele guia… uau! Dank.

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  5. Oi Zé, claro que vim conferir aqui tb. Já te falei que seu texto é maravilhoso! Lindíssimas as fotos mas tem uma que chamou a atenção : aquela do sr dormindo no banco com as cores da natureza e das construções… Lindo contraste com o texto que relata episódios históricos tão pesados. Um beijo e parabéns, vc arrasa! D

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  6. Já diz o velho ditado:”Mais vale uma foto do que mil palavras”- Imagine então a riqueza de detalhes tanto na escrita, qto nas fotos do José Maria.Amigo queridíssimo,é dono de uma mente brilhante,aspecto essencial à criatividade, e ao lê-lo , já incita minha criatividade para um passeio na imaginação, memorizando e deixando guardado na gaveta dos meus sonhos de um dia conhecer esse país, tão bem descrito pelo nobre amigo. –que eu já denomina de “Menino de Ouro”- e é brasileiro!!!! só aí já valeu muito!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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    • Muito prazeroso “reler” seu texto, José Maria. Ele revela suas andanças numa linguagem que aguça a curiosidade de quem o lê. O tom é leve, mesmo em passagens historicamente sombrias. Como disse no comentário anterior, a descrição perfeita , o conhecimento e a criatividade que possui dão-nos a possibilidade de viajar com você. Beijos!!!

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