Retiro no Mosteiro Zen Budista – 2º dia (ou: O dia em que cantei Faroeste Caboclo nove vezes).

sapatos zen

Quarta e quinta já passaram.  Ainda faltam sexta e sábado?! Quem está acompanhando a minha saga no primeiro retiro da minha vida (e primeira meditação também) sabe que eu já enfrentei momentos de dor, de desespero, e de profunda alegria.  

(Minha sugestão é que você leia antes : A chegada e O 1º dia no retiro, mas, se estiver com preguiça, pode continuar daqui mesmo, nada que enfraqueça a amizade.)

Todo mundo já se conhece agora e as conversas são bem edificantes: paz mundial, evolução espiritual… vixe! Que nada! O povo fala besteira também. E fala dos outros (merecidamente, fofoca-se diga-se de passagem). Descubro que no retiro, como em qualquer lugar do mundo, tem gente de boa e tem gente que merece sentar num prego na hora do zazen.

Lembrei de uma coisa importante: o Kyosaku!!! (Assim mesmo, cheio de pontos de exclamação). Estou eu na não-ação, sentada de frente pra parede há quase meia hora, quando escuto Tlap! Tlap! Um barulho alto, como se alguém estivesse sendo atingido por um pedaço de madeira. Sabe o que era??

kyosaku zazen meditação

O monge é bonzinho, juro.

Alguém sendo atingido por um pedaço de madeira! Um monge, capacitado para isso, passa dando a “ripada” no ombro de quem pede ou precisa. Eu não sabia que isso existia, eu não sabia que as pessoas solicitavam o golpe. Passo momentos de puro terror, imaginando o que eu farei quando for atingida (mortalmente?). Ninguém grita e eu tenho certeza de que irei gritar. E… bater em monge, é pecado? Nunca, nunquinha,  em toda a minha vida, me sento com as costas tão retas.

Depois descubro que o golpe tem todo o significado e, pasmem, não dói. E o monge não está dando (pancada) está retirando algo (tensão, talvez). Eu sei que não dói de ouvir dizer, viu? Não tenho coragem de pedir o Kyosaku, mas pouco depois me arrependo de não ter vivenciado isso.

zazen postura

À essa altura, a parte mais difícil do meu dia é tomar a água ou chá que lava a vasilha onde eu como.  Desenvolvo técnicas: como tudinho e deixo algo mais consistente para o final (batata, por exemplo), aí limpo o prato com isso até sobrar nada. O chá morno começa a fazer muito bem, excelente pra digestão. O cardápio do dia é purê de abóbora, arroz, suflê de milho e salada. A comida é, novamente, bem gostosa.creme de abóbora, suflê de milho

Preciso admitir que também desenvolvo técnicas para o zazen – a música “Faroeste Cabloco”, do Legião Urbana, que tem nove minutos de duração! Penso: “Se eu cantar os 159 versos mentalmente, por cinco vezes , termina a meditação” e dá-lhe  “Não tinha medo o tal João do Santo Cristo, era o que todos diziam quando ele se perdeu…”  Não consigo completar a letra nem uma vez e aprendo mais uma lição: quando você relaxa da obrigação de pensar em nada… você acaba pensando em nada!

Refaço a trilha até o Centro Cultural (que até então eu chamava de casa do artista) e mergulho de roupa e tudo na piscina na rocha. E a mineira que está comigo pergunta: “Uai, será que pode?”

piscina mosteiro

Ihhhhh essa resposta eu não tenho. Prefiro não saber, para nadar de novo se a vontade aparecer.  Na dúvida, nos escondemos dos monges e corremos para o alojamento para trocar de roupa, antes da próxima atividade coletiva.

Por falar em roupa, o que levar na bagagem para um retiro no mosteiro? Fácil! É confortável, não é sexy, e permite que você se movimente? Jogue na mala!  Não espere elogios, mas, acredite, ninguém se preocupa com isso mesmo.  Veja as minhas produções (toscas):

roupa retiro mala o que levar  roupa retiro o que levar

E o troféu “combinação mais estranha do ano” vai para o visual que cometi para a trilha noturna e o zazen ao ar livre: calça indiana (agradecimento especial para a cunhada mais que especial que mora na Índia), casaco, tênis e camiseta.

retiro mosteiro roupa

Ah, o meu chinelo Crocs (da primeira foto  ganhou até elogio de monge!! Sério, ninguém liga para o que você veste, mas se quiser pode jogar uma echarpe e caprichar no calçado que vai ser deixado nas portas dos templos.

Momento mais especial do dia: ordenação de novos monges! Isso você dificilmente vai ver, a não ser que seja um monge, claro(ou pelo menos parente ou amigo íntimo de um). A cerimônia é belíssima, muitos se emocionam. Penso em como são especiais os dez preceitos (mandamentos) do budismo. Resumindo, algo como: Não matar; não roubar; não cometer adultério; não ser ambicioso demais; não ser tomado pela raiva; não ser estúpido; não mentir; não omitir com belas palavras; não blasfemar; não ser contraditório.ordenação mosteiro zen budista

A ordenação merece um texto só para ela, mas não me arrisco, já que é algo que não entendo bem e não quero falar o que não devo. Por favor, se algo estiver errado, me corrija também, viu?  monges ordenação

Para comemorar a ordenação, “festa” com as famílias, com direito a bolo confeitado e guaraná! (pensou que só se comia broto e bebia chá, aposto).  Me uno ao grupo dos que comem bolo demais e burlamos as regras: hoje dormiremos às nove e MEIA da noite!! Uhuuu!

Já contei pra vocês que vou embora amanhã, um dia antes do final do mosteiro? Não?! Pois é. Quer saber o motivo? Quer saber como foi??

Eu conto amanhã (vai ser o último da série, prometo)

Mulheres no mosteiro

Obrigada por meditarem e comerem bolo comigo. E até a próxima!!

29 comentários sobre “Retiro no Mosteiro Zen Budista – 2º dia (ou: O dia em que cantei Faroeste Caboclo nove vezes).

  1. Cantar mentalmente Faroeste Caboclo é a inovação pro Zazen. Vai ver essa foi a saída do Renato Russo pra vencer os 40 minutos de meditação. kkkkkk
    O primeiro Sesshin marca muito. Me lembro de um colega que estava indo pela primeira vez (eu já sabia das dores pra quem não tinha costume de meditar), então perguntei pra ele:
    __ E as pernas?

    Ele me respondeu: __ Pernas? Que pernas? As minhas agora fazem parte do universo!

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Muito bom sua série de textos e impressões sobre o Zen.
    Gasshô _/\_

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  2. Pingback: Retiro no Mosteiro Zen Budista- Como chegar, quanto custa e o que eu aprendi. | VIAGEM MASSA

  3. Dias para despir a alma das vontades do mundo e, quem sabe, descobrir que elas nos escravizam. Um presente que todos nós merecemos.
    Ainda não estou preparada para esse “enfrentamento”, mas quero muito. E com direito a ripadas!
    Parabéns pela beleza do texto…divertido e emocionante.Amei!

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