Retiro no Mosteiro Zen Budista- A chegada

Chego para o retiro de três dias no Mosteiro Zen Budista em Ibiraçu por volta das quatro da tarde- a indecisão me faz chegar no prazo limite. O mosteiro é o maior da América Latina e, este ano, completa quatro décadas. Não estou segura se deveria ter vindo… e nunca meditei na vida.jardim zen

alojamento mosteiro Recebo as orientações e sou levada ao alojamento. Os quartos podem acomodar até quatro pessoas e tem apenas colchões no chão, uma coberta e um lugar para pendurar as roupas. O colchão é ortopédico, gostei.

Os horários são muito bem definidos e não há desculpa…estão por toda parte.  Não tenho noção do significado das palavras, mas presto atenção: 4h20 hora de acordar. 21h, dormir. Parece impossível para mim. Tenho tempo de conversar com algumas pessoas antes das atividades obrigatórias e descubro que a  maioria participou de retiros anteriores e está voltando.  “Deve ser bom, então”, penso, tentando relaxar. De bônus, descubro que do alto de um monte consigo sinal de celular.

atividades zen

Logo chega a hora do meu primeiro Zazen. Eu chamaria de meditação, mas não sei se o termo é correto. Os monges chamam de não- ação. Eu, sentada com as pernas cruzadas, mãos na posição determinada, olhar 45º voltado para a parede, língua no céu da boca, tentando livrar minha mente de qualquer pensamento. Isso por meia hora! Como não pensar? Penso na dor que sinto nas costas, penso que terei uma trombose na perna quando a dormência passar, penso se ainda dá tempo de ir embora hoje mesmo.  

zazen mosteiro zen

Ali estou eu, a terceira do lado esquerdo

Para tudo há um ritual. Depois de receber algumas orientações e recitar os sutras é hora do jantar. Sinto que vou levar um esporro de um monge a qualquer momento por fazer tudo errado. Alguém poderia me explicar o significado do que faço? Tudo precisa estar perfeitamente alinhado: colher e tigela cheia de sopa de lentilha. Eu gosto de lentilhas… e quem não?  “Quando comemos e bebemos, rezamos juntos com todos os seres. Comer é alegria do Zen e ficamos cheios da felicidade do Darmaaaaa”. Depois disso todos comem em silêncio- e bem mais rápido do que sempre imaginei.  Descubro o significado da garrafa térmica que está sobre a mesa. É água quente que deve ser usada para limpar o que restou da comida na tigela ou no prato. Sirvo a participante do retiro que está sentada à minha frente e ela me serve. Com um pedaço de nabo é preciso lavar o utensílio e beber o líquido depois.  Controlo o enjoo e aprendo a primeira lição: nada de desperdício. “Comida pura já comemos, e rezamos junto com todos os seres. Para ficarmos cheios de virtudes e realizarmos os dez tipos de forçaaaaas”.  Opa, mas tem sobremesa, e é a melhor cocada branca que já comi na vida, feita no mesmo dia, no mosteiro.

Antes de dormir, mais um Zazen. Reclamo e escuto de mais de uma pessoa “ihhhh os que acontecem no período da manhã são os mais difíceis”.  Nove da noite…silêncio.  Teoricamente ninguém fala mais e todos devem se dirigir aos quartos. Teoricamente. Meu alojamento fica um pouco mais distante da casa principal e meus “vizinhos” são os melhores- entre eles, uma mineira que trouxe um estoque clandestino de comidinhas gostosas e um contador de histórias muito bom.  Momento-emoção da noite: uma perereca gigante na parede do banheiro e mulheres que ameaçam até greve de xixi caso o monstro permaneça por lá.

Mosteiro zen Ibiraçu

Resumo do dia: não entendo nada, não conseguirei fazer as atividades e meditações, a comida até que é gostosa, tem gente boa e tem gente mais ou menos, estou com saudades do marido e do filho, monges não são vagarosos como eu imaginava, não sei pra quê fui inventar de fazer esse retiro.

Mas essas foram só as primeiras horas, amanhã o dia começa de madrugada. Vamos ver o que vai acontecer.

Obrigada por meditarem comigo. E até a próxima (amanhã bem cedo!)

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Ainda sobre o retiro no Mosteiro Zen Budista de Ibiraçu:

A programação

O 1º dia – Bem que a mamãe me avisou

41 comentários sobre “Retiro no Mosteiro Zen Budista- A chegada

  1. Pingback: Entrevista da semana | Viagem Massa | ABBV | Associação Brasileira de Blogs de Viagem

  2. estou pensando em fazer um retiro, mas não sei se consigo, pois estou fazendo um tratamento de câncer nos ossos e não consigo ficar muito tempo de pé ou sentada. Sou uma pessoa muito espiritualizada, gosto de conhecer o meu eu, e de estar só. Em janeiro passei um mês acampada no Camping do Siri em Marataizes, estava vazio, lá tem toda estrutura, restaurante, praia maravilhosa, silencio, levei meu colchão e minha poltrona inflável, fiquei super bem, sem me cansar e/ou sentir dor. Tive tempo de sobra para meditar, ler a bíblia, pensar, chorar, sorrir e claro conversar muito com Deus, que no dia a dia nos falta tempo. Agora me veio na cabeça o templo Budista, só não sei se no meu caso, daria certo. O que vc acha? Penso em ligar para lá e falar do meu problema, mas acho que eles vão dizer que é obvio que no meu caso não convém, já que não iria poder fazer as tarefas como outros visitantes. Estou precisando de um retiro espiritual que me faça bem e me ajude a ficar calma, ZEMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM

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    • Rosana. Uma das coisas mais legais no mosteiro é o respeito que eles tem pelo outro, como indivíduo e como todo. É realmente importante participar das atividades coletivas, mas há respeito pelas “limitações” de cada um. Dá uma ligadinha pra lá sim, pra esclarecer essas dúvidas. Vai fazer muito bem espiritualmente… e isso é tão importante para o corpo, não é? Por favor, depois me informe o que decidiu. Fiz uma oração pra você, ok? Fico na torcida para sua melhora. Um abraço.

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  3. Elaine, fiz o retiro, neste carnaval de 2014, e realmente, quero te agradecer,seu blog, pasa com fidelidade, todo o processo, e me ajudou bastante ,pois quando comecei,
    A sentir os sintomas da vontade de vim embora…lembrei d vc….foi meu primeiro, vc falou
    Tudo com muita retidão . Parabéns , vou seguir suas dicas…zazen , muito para vc…

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  4. Pingback: Retiro no Mosteiro Zen Budista- Como chegar, quanto custa e o que eu aprendi. | VIAGEM MASSA

  5. se eu tivesse escrito no dia, teria dito: da tempo de ir embora…

    e ir a um retiro budista, nao conhecendo a doutrina, é realmente sem muito propósito. A gente pensa que assim vai mudar a nossa vida, ou que assim vai aprender a meditar e tal, mas sem entender o porquê fazem assim e aonde querem chegar…

    mas acredito que o que “muda a nossa vida” sao mesmo os principios em que nós acreditamos, colocá-los em prática, enfim… mas vale a experiencia, claro, amiga!

    E pesquisar sobre, a fim de participar e entender o propósito do que fazemos é muito importante, senao nao tem o mesmo significado! Ou não tem significado algum!

    beijaao 😉

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  6. Pingback: Retiro no Mosteiro Zen Budista – 2º dia (ou: O dia em que cantei Faroeste Caboclo nove vezes). | VIAGEM MASSA

  7. Pingback: Retiro no Mosteiro Zen Budista- 1º dia (mamãe bem que me avisou) | VIAGEM MASSA

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