Pico da Bandeira. Resmunguei muito, mas tô louca pra voltar!

O que é que eu estou fazendo aqui? Quem foi que inventou essa história? Não vou conseguir,  não vou conseguir!

Era tudo o que eu pensava enquanto tentava chegar ao alto do Pico da Bandeira e olha que eu sou bem otimista. Eu estava com fome, cansada, a respiração era algo que não existia… mas, peraí, deixa eu contar essa história pra vocês desde o começo.

Sabe quem é a pessoa que está no mais alto do Brasil? Eu!

 A oportunidade da viagem apareceu de repente, mais uma caminhada feita por um grupo do qual me considero quase fazendo parte, o andarilhos.org.  Não vou iludir vocês; apesar do grupo, sou uma pessoa meio sedentária, sem preparo físico (ainda), e escalar montanhas definitivamente não faz parte da minha rotina. Quando era adolescente até viajei pra região e cheguei a acampar no Vale Verde (fica bem pertinho da portaria, com lindas cachoeiras de água muuuuito gelada) mas não me aventurei na subida. Desta vez saí de casa determinada a chegar ao topo do terceiro pico mais alto do Brasil.

Há dois caminhos para chegar lá. Nós escolhemos trilhar o lado mineiro, que é  um pouco mais longo e cheio de cachoeiras. Quem já fez o percurso partindo do Espírito Santo diz que, apesar de menor, o trajeto pelo lado capixaba é mais íngreme.

Por Minas Gerais, são nove quilômetros de caminhada que a maioria das pessoas faz em duas etapas. O mais comum é subir até a metade, dormir no Terreirão (onde está a famosa casa de pedra) e partir novamente no meio da noite (por volta das três horas) pra ver o sol nascer lá no alto. Quem acampa no Terreirão aproveita o banheiro (dificilmente limpo), a bica para reabastecer a água e a excelente oportunidade de conhecer pessoas de toda parte do Brasil e do mundo. Tem que ir preparado porque venta e o frio é intenso.                    
 Na verdade, eu não vivi essa experiência de passar a noite no Terreirão. O grupo resolveu dormir no hostel (Pousada Querência), em Alto Caparaó, partir bem cedinho e fazer tudo de uma vez só! Compramos alguns chapéus pra proteção contra o sol e nos agarramos ao lema escrito neles: “não há conquista sem sacrifício”.  Pegamos um jipe, passamos pelo Vale Verde e paramos na Tronqueira (onde também é possível acampar).

A caminhada, pra nós, começou aí. Pra mim, começou também uma das experiências mais fortes da minha vida.

Como resolvemos fazer o percurso de uma só vez, e não dormir no meio do caminho, as nossas mochilas não estavam tão cheias. De qualquer forma, a cada quilômetro parece que o peso se multiplica! Quem vai acampar pode pagar por uma mula para ajudar no transporte do material.

As orientações básicas dizem que é preciso levar bastante água, frutas (as secas são ótimas porque não ocupam tanto espaço, mas as frescas e suculentas, como maçã, pera e laranja ajudam a matar a sede), cereais, chocolate…  Em relação às roupas, aposte no que você tiver de mais quente e mais leve. No dia em que subimos o Pico estávamos preparados para o frio, mas fomos surpreendidos por sol forte e calor (amigos contaram que, por mais gelado que esteja, durante a subida é quase impossível evitar o suor). Aconselho levar luva, gorro, cachecol e um par extra de meias.  Aconselho também que você contrate um guia, mesmo que não pareça necessário. Fizemos isso, apesar de várias pessoas do grupo já conhecerem a trilha, e no final eles conseguiram evitar quase uma tragédia (suspense pra segurar o leitor…).

Nessa trajetória eu descobri várias coisas. A primeira é que as aparências enganam. A trilha parece fácil, mas é irregular, cheia de pedras e bastante cansativa. Tente arrumar um cajado (mesmo que seja um pedaço de pau ou cabo de vassoura), fica bem mais fácil.  Descobri que é importante escolher bem os seus companheiros de subida. Os meus encheram a caminhada de alegria e me ajudaram principalmente a não desistir no meio do caminho (também me cederam uma maçã, pararam pra descansar quando alguém achava que era necessário, e teve até um cavalheiro que carregou minha mochila um  pouco e ganhou minha eterna gratidão). Outra coisa importante: não pense no quanto falta pra chegar lá. De o primeiro passo e vá na fé! E, sem querer assustar, os dois últimos quilômetros são os mais difíceis.

Chegamos ao ponto do início deste texto. Mil vezes eu me perguntei o que estava fazendo ali. Mil vezes reclamei, resmunguei, enquanto me imaginava descansando em uma rede. Mil vezes pensei em desistir e voltar na metade do caminho.

E mil vezes agradeci a Deus por ter conseguido chegar no alto e por tudo o que eu senti.

Sensação é algo bem relativo, né? Mas fica difícil não se sentir forte (se eu fui capaz de subir o pico, sou capaz de conquistar o mundo!), não se emocionar  (admito que abri o chororô) e não se sentir bem pertinho do amor de Deus (ou da força da natureza, ou de uma energia maior… de acordo com a crença de cada um).

Você está acima das nuvens! Venceu os 2.889 metros. Não há ninguém no Brasil que esteja num lugar mais alto (há o Pico da Neblina e o Pico 31 de Março, mas ninguém vai lá escalar).  É inesquecível, sério mesmo.  E, surpresa! O telefone funciona (não todos, mas muitos). Dá vontade de ligar pra todo mundo, pra tirar onda de estar no topo, pra dizer que gostaria que aquela pessoa estivesse ali, fazer declaração de amor e blá, blá, blá.

Daí passa rapidinho. Você comemora, tira foto no cruzeiro, tira foto fazendo de conta que está nas nuvens, tira foto, tira foto, tira foto… e está na hora de descer. E aqui não vale a máxima de que “pra baixo todo santo ajuda”.  É que a descida força bastante o joelho e você tem que se concentrar mais pra não virar o pé e não escorregar nas pedrinhas. Na volta, a temperatura começou a cair rapidamente (lembre-se que subimos e descemos no mesmo dia, de uma vez só).  O grupo era grande, mas os menos preparados foram ficando para trás (eu até fui bem, nessa etapa). O combinado era que todo mundo se encontraria na metade do caminho, o Terreirão. Uma das pessoas começou a passar mal e não conseguia mais descer. Tentamos buscar ajuda, ligando para a organização do parque, mas não conseguimos nada ( já que eles cobram uma taxa, na minha opinião deveriam oferecer um suporte maior). Foram os dois guias adolescentes que conseguiram “fazer o resgate”.  Por isso, reforço o alerta: contrate o guia e não vá inventar de subir sozinho!

Foi difícil, foi cansativo, foi maravilhoso! Só não espere muita privacidade. Olha como pode ficar o Pico da Bandeira na hora em que o sol nasce:

Agora quero voltar … pra ver o sol nascer acima das nuvens…

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Quer caminhar também?  www.andarilhos.org

Informações oficiais sobre taxas, hospedagens e como chegar estão neste site

15 comentários sobre “Pico da Bandeira. Resmunguei muito, mas tô louca pra voltar!

  1. Olá,li sua passagem ao glorioso Pico da Bandeira,meu lugarpreferido! Semprequando dá uma folga dou uma passada por lá! Amo aquele lugar e acho que todo brasileiro que possa ir lá,deveria conhece-lo! Esse ano de 2013 irá completar 17 anos que vou ao Pico todo ano no minimo duas vezes,nas luas cheias de junho e julho. Já fazem uns6 anos que nao subo ao topo,porém,sempre acampo na tronqueira e por ali faço muitas amizades Brasil a fora… Hj mesmo conversei com meu primo que sempre vai junto comigo e falamos na anciedade de ter que esperar até junho e julho todo ano…kkk saímos de lá com vontade de voltar logo! E lendo sua história relembra todas as vezes que subi e ainda hj comnetei com o mesmo primo, Renan, que gostaria de subir este ano(2013) se Deus quiser! Deus abençoe a todos e voltem os que já foram ou se não, o conheçam, pois irao se apaixonar! Simplesmente Maravilhoso! NÃO HÁ CONQUISTA SEM SACRIFICIO! Meu lema,minha vida,meu Pico da Bandeira! Espero conhecer todos lá! Passem pela tronquera e procurem por nós!!! Plínio e Renan… Sempre estaremos por lá nas luas cheias de junho e julho se assim Deus permitir…. Saudaçoes a todos

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  2. Eu conseguiiiiiiiiiiiiii!!!!
    Até agora não estou acreditando…consegui subir o pico da bandeira ( 3º maior pico do Brasil) com meu marido, companheiro fiel de todos os momentos que embarcou comigo nessa aventura. Diga-se de passagem que foi a maior loucura que já fiz na minha vida. Meus amigos vou contar isso é que é loucura!! Só ontem eu andei 9,5 km de pé. Meu joelho está mega dolorido de tanto forçar as subidas nas pedras. É muito difícil fazer essa caminhada. Já no final da trilha (depois da subida do terrerão) eu estava quase chorando e lutando contra meu corpo, contra tudo que vinha na minha mente… é muito difícil a caminhada, difícil msm! É pedra que não acaba mais. Eu estava com 4 casacos, 3 calças comprida,2 luvas, 2 meias, gorro e uma temperatura de 2 graus positivos. Minha roupa já estava suada de tanto andar mas não poderia tirar pq estava muito frio. Deixa eu aproveitar e contar como foi nossa noite acampamento. Na noite que durmimos no terreirão caiu uma chuva e um vento daqueles. Estávamos na barraca, a casa de pedra estava cheia ( a casa de pedra é de graça). A chuva passou por volta das 2h da madrugada, o céu estava lindo e iluminado pela lua cheia, todas as estrelas brilhavam…uma galera começou a caminhada e nós resolvemos começar nossa caminhada as 5h. Achei que era perigoso caminhar na madrugada (mesmo com lanterna de mão e de cabeça). Quando eu começamos a caminhada eu tive a certeza que não era p/ter saído na madruga…é um trecho que praticamente só tem pedra, algumas partes o caminho é bem estreito com pedras soltas e todo cuidado deve ser tomado. Alguns momentos vc se depara com uma escalada!!! É isso msm …um pardão de pedra em pé… Eu virei meu pé duas vezes na trilha. Mas não foi nada grave… Falava com Deus o tempo todo para que me desse força e coragem pq estava cada hora mais difícil, não chegava nunca!!!! É assim…. vc olha e vê de longe onde deve chegar mas passa morro, chega outro morro e vc anda e dá vontade de chorar…Mas nós conseguimos.
    Minha amiga Elaine Castro já fez esse aventura e chorei ao ler o depoimento dela no blog antes de fazer a caminhada. Só quem passa por lá sabe o quanto é difícil percorrer os 7km de ida e mais 7km de volta. no fim das contas caminhamos sozinho. Quando estávamos indo o grupo da madrugada já estavam voltando. Praticamente não demoramos muito tempo por lá. Eu já queria vir embora e fomo parando pelo meio do caminho. Acho q é válido fazer a caminha. É algo que n tem explicação…é loucura mesmo!!! Mas hoje eu não voltaria. Minha amiga Elaine diz que depois isso passa e eu vou logo querer voltar…É isso ai mais uma vitória. Já estou pensando em fazer uma outra caminhada mas nada de pedra pelo caminho….rsrsrsrs.
    Saudações a todos!!!! bjs
    Alê

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